Há uma diferença clara entre o que o Copom sinaliza e o que aparece no balanço dos bancos com dois ou três meses de atraso. A Selic está em 15% desde a última reunião, e o mercado já precifica cortes a partir do quarto trimestre. Mas o custo de captação dos grandes bancos — medido pelo CDI médio pago a depósitos e títulos de curto prazo — ainda ronda patamares elevados.
Isso explica, em parte, por que o spread bancário segue confortável. No segundo trimestre, Itaú, Bradesco, Santander e BB reportaram margem financeira bruta resiliente, mesmo com carteira de crédito crescendo abaixo da inflação em alguns segmentos.
O que os números mostram
Olhei os releases dos quatro maiores bancos listados e montei uma leitura comparativa. Os dados abaixo são aproximados, arredondados para facilitar a comparação entre instituições com metodologias contábeis ligeiramente diferentes.
| Indicador | Faixa observada | vs. 1T2026 |
|---|---|---|
| ROE | 17,8% – 21,2% | Estável a +0,4 p.p. |
| Margem financeira bruta | 8,9% – 10,1% | +0,2 p.p. na média |
| Crescimento da carteira (12m) | +9% – +12% | Desaceleração leve |
| Inadimplência (>90d) | 3,1% – 4,2% | Estável |
| Índice de Basileia | 14,5% – 16,8% | Confortável |
Fonte: releases de resultados 2T2026, cálculos Vetor. Valores arredondados.
Spread: ainda não é hora de comemorar
O spread — diferença entre o que o banco empresta e o que paga para captar — é o coração da rentabilidade bancária no Brasil. Com a Selic alta por tanto tempo, os bancos repassaram o custo ao tomador com relativa facilidade. O crédito consignado público e o imobiliário seguraram volume; o PF livre e o PJ pequeno ficaram mais seletivos.
O spread não cai no dia em que o Copom pausa. Ele cai quando a concorrência por empréstimo volta — e isso ainda não aconteceu de forma generalizada.
O que observo nas conversas com gestores de mesa (off the record, sem citação nominal) é cautela com crédito de risco mais alto. A inadimplência não explodiu, mas o custo de provisionamento segue elevado em segmentos como cartão rotativo e crédito direto ao consumidor.
E o crédito, para onde vai?
Se a Selic começar a cair no quarto trimestre, como o mercado projeta, dois cenários competem. No primeiro, os bancos mantêm taxas de empréstimo e deixam o spread expandir temporariamente — o que sustentaria ROE mesmo com crescimento de carteira modesto. No segundo, a competição por volume — especialmente em crédito imobiliário e agrícola — força repasse mais rápido, comprimindo margem mas recuperando crescimento.
Minha leitura, hoje, pende para um meio-termo: spread estável por mais um trimestre, com crescimento de carteira entre 8% e 10% em 12 meses. Não é cenário de crise nem de boom. É o tipo de ambiente em que stock picking importa mais que beta do setor.
O que acompanhar daqui
- Comunicados do Copom e projeções do Focus sobre a trajetória da Selic
- Taxa média de novos contratos de crédito PF, divulgada pelo BCB
- Provisão para devedores duvidosos nos segmentos de cartão e CDC
- Concorrência de fintechs e bancos médios em crédito garantido
Na próxima semana, a Marina publica a leitura sobre Petrobras e o barril — outro setor onde política e mercado se misturam de forma pouco óbvia.